Dados fiscais sempre foram importantes. Essa parte não começou com a Reforma Tributária e eu não acho que vale fingir que começou.
O que mudou em 2026 foi a quantidade de processos que passaram a depender de esses dados nascerem certos, circularem bem e chegarem aos sistemas sem perder o contexto pelo caminho.
Eu voltei a pensar nisso depois de rever a masterclass da Dattos com Emanuelle Lemos. Ela passou mais de 20 anos dentro de áreas fiscais de grandes empresas e, durante a conversa, falou de CBS, IBS, split payment, créditos e transição. Tudo isso estava na pauta. Só que a frase que mais ficou comigo foi bem menos jurídica.
| “A gente precisa começar a deixar de ler só lei e começar a ler número. O que os números estão me falando?” Emanuelle Lemos, na masterclass Reforma Tributária e dados |
Na hora, eu entendi aquilo como uma provocação sobre a mudança do trabalho fiscal. Depois, quando comecei a olhar o que já ganhou forma em 2026, a frase cresceu. Porque conhecer a regra continua sendo indispensável, mas a regra agora precisa sobreviver ao caminho inteiro: cadastro, sistema, documento fiscal, cálculo, conciliação, pagamento e fechamento.
E esse caminho tem muita gente envolvida. Fiscal conhece o tratamento, compras ajudam a determinar informações na origem, tecnologia transforma requisito em sistema, financeiro acompanha liquidação e caixa, já a contabilidade precisa registrar tudo depois. Se um dado muda de significado no meio dessa viagem, alguém vai descobrir. A dúvida é se isso acontece no cadastro ou numa reunião de fechamento às sete da noite.
Foi por isso que eu resolvi voltar à apresentação da Emanuelle quase um ano depois e fazer uma checagem simples: o que era visão em setembro de 2025 e o que já virou infraestrutura, regra técnica ou processo em 2026?
O resultado é um artigo um pouco diferente dos nossos guias tradicionais. Quero usar a masterclass como ponto de partida, mas seguir a conversa até onde os dados oficiais já permitem chegar.
Dados fiscais na Reforma Tributária: o que mudou de verdade em 2026?
2026 é o ano-teste da CBS e do IBS. Só que, para uma grande empresa, teste tributário não significa assistir à mudança de camarote.
A Receita Federal orienta a emissão de documentos fiscais eletrônicos com destaque de CBS e IBS, individualizados por operação, conforme os leiautes e notas técnicas de cada documento. Ao mesmo tempo, novos ambientes de apuração, declarações e integrações estão sendo preparados.
Isso leva a Reforma para um lugar bem menos abstrato. A discussão passa a envolver versão de leiaute, classificação da operação, regra de cálculo, cadastro, homologação, integração e disponibilidade de informação. Em outras palavras, a empresa precisa transformar uma mudança legal em uma sequência de dados que os sistemas consigam entender e repetir com consistência.
E existe uma característica de 2026 que deixa tudo mais interessante: a própria implementação continua se ajustando.
Em maio e junho, comunicações oficiais indicavam que determinados documentos passariam a rejeitar emissões sem os campos de CBS e IBS a partir de 3 de agosto. Em 31 de julho, RFB e CGIBS flexibilizaram várias regras de validação para DF-e, evitando a rejeição automática pela ausência desses campos nos documentos abrangidos.
Se você trabalha com projeto que envolve Fiscal e Tecnologia, já sabe o que essa frase significa na prática: o time precisa adaptar o sistema para uma regra que também pode receber uma nova versão. É por isso que eu acho perigoso tratar 2026 apenas como um ano para aprender a nova alíquota. A empresa também está aprendendo a operar uma arquitetura tributária que ainda está sendo implantada.
Fontes para aprofundar: Orientações da Receita Federal para 2026 · Flexibilização das validações de DF-e
O que Emanuelle colocou no radar e o que 2026 já tornou concreto?
Quando revi a masterclass, percebi que o melhor jeito de organizar a conversa era colocar lado a lado algumas provocações da Emanuelle e os movimentos que vieram depois. Não para transformar a palestra em uma lista de previsões acertadas, mas para enxergar onde aquela leitura já ganhou materialidade.
| Na masterclass, Emanuelle chamou atenção para… | Em 2026, já conseguimos observar… |
|---|---|
| A Reforma como uma transformação de dados, e não apenas de alíquotas. | Documentos fiscais, apuração e novos serviços digitais passam a depender de informações estruturadas e de leiautes técnicos. |
| A necessidade de transformar regra tributária em lógica de sistema. | The Receita disponibiliza uma Calculadora de Tributos oficial e de código aberto, preparada para transformar regras de CBS, IBS e IS em lógica computacional. |
| A aproximação entre Fiscal e Financeiro. | A plataforma pública de split payment já possui manual de integração para que instituições de pagamento desenvolvam suas soluções. |
| A passagem da conferência manual para uma gestão mais orientada por exceções. | A Apuração Assistida da CBS já faz parte dos ambientes e materiais oficiais da Reforma em 2026. |
| A importância de testar tecnologia antes da entrada plena do novo modelo. | O piloto da CBS segue até dezembro de 2026 e permite participação direta de empresas na experimentação das soluções tecnológicas. |
O que eu gosto nessa comparação é que ela tira a discussão daquele lugar genérico em que tudo vai ficar mais digital. Já dá para enxergar o que está sendo digitalizado, quais dados alimentam cada etapa e onde as empresas vão sentir o impacto quando a informação não fecha.
70 bilhões de documentos: por que esse número muda a conversa?
Eu tenho uma regra pessoal com números muito grandes: quando eles aparecem num slide, eu tento descobrir o que significam na rotina. Porque 70 bilhões impressiona, mas ninguém revisa cadastro, integração ou processo só porque um número ficou bonito no PowerPoint.
Segundo o Serpro, a infraestrutura da Reforma foi dimensionada para suportar até 70 bilhões de documentos fiscais e 800 bilhões de operações por ano, com picos de 25 mil transações por segundo.
O órgão também fala em 14 sistemas completamente novos sendo construídos para sustentar esse ecossistema e em uma necessidade de armazenamento que, ao final da implementação, será muito maior do que a estrutura histórica usada com a Receita.
A escala é do governo, mas a pergunta que me interessa está do outro lado: como a informação que chega a essa infraestrutura foi produzida dentro da companhia? Porque o dado fiscal não nasce no portal da Receita. Ele começa no produto cadastrado, no fornecedor criado, na natureza da operação, na condição comercial, no ERP e em várias decisões que acontecem antes da nota existir.
Quando eu traduzo a cadeia para uma grande empresa, vejo pelo menos cinco pontos em que o mesmo dado pode ganhar contexto, perder contexto ou simplesmente chegar diferente do esperado:
- Cadastro mestre: produtos, serviços, clientes e fornecedores precisam representar a operação real;
- ERP e sistemas fiscais: os dados viram regras, campos, documentos e cálculos;
- Documentos eletrônicos: a informação passa a circular dentro de leiautes e validações técnicas;
- Apuração: os registros alimentam débitos, créditos, cálculos e possíveis ajustes;
- Financeiro e Contabilidade: pagamento, liquidação, conciliação e registro precisam conversar com o que aconteceu no fiscal.
Quanto mais etapas dependem do mesmo dado, maior fica o custo de uma inconsistência. E é por isso que um cadastro que parecia assunto administrativo começa a ganhar peso estratégico. O erro pode nascer pequeno e viajar muito bem. Sistema nenhum tem preconceito contra dado errado: se a regra permitir, ele processa com a mesma eficiência.
Fontes para aprofundar: Serpro — Entenda o tamanho da Reforma Tributária
O que Emanuelle quis dizer quando falou em começar a ler número?
| “A gente precisa começar a deixar de ler só lei e começar a ler número. O que os números estão me falando?” Emanuelle Lemos, na masterclass Reforma Tributária e dados |
Essa foi a frase da masterclass que mais ficou comigo. Não porque o fiscal vá deixar de estudar legislação — seria uma conclusão bem estranha —, mas porque a execução da regra está ganhando uma camada cada vez mais estruturada nos sistemas.
Uma das coisas que mais me ajudou a entender isso foi a Calculadora de Tributos disponibilizada pela Receita Federal. A ferramenta oficial é de código aberto e transforma parâmetros da Reforma em lógica computacional. Nos materiais da Receita, ela aparece como uma solução que interpreta os dados da operação e calcula CBS, IBS e Imposto Seletivo de forma padronizada e auditável.
Eu acho essa parte fascinante porque ela materializa algo que, numa palestra, pode parecer abstrato: a legislação continua sendo interpretada por pessoas, só que uma parte dessa interpretação precisa depois virar uma lógica que o sistema aplique de forma repetível. Em uma empresa com milhões de transações, ninguém quer rediscutir a regra do zero a cada documento.
Só que existe um efeito colateral óbvio. Um motor consegue aplicar uma regra milhares de vezes. Se o cadastro ou a parametrização estiverem errados, ele também consegue repetir o erro milhares de vezes. A automação melhora a escala; ela não transforma premissa ruim em premissa boa. Essa parte ainda depende de gente entendendo o processo.
A Apuração Assistida da CBS segue a mesma direção. Em 2026, a Receita e o Serpro já trabalham com sistemas que identificam documentos fiscais eletrônicos com CBS destacada e levam essas informações para os ambientes de apuração. Isso aproxima o momento da operação do momento em que o tributo é analisado e reduz o espaço para reconstruir toda a história apenas no fechamento do período.
Para mim, é aqui que a frase da Emanuelle deixa de ser só uma boa provocação. Ler número, nesse contexto, significa entender o que os dados da operação estão mostrando antes que o problema precise virar um ajuste manual, uma divergência de conciliação ou uma explicação enviada por e-mail para quatro áreas diferentes.
Fontes para aprofundar: Material oficial da Calculadora de Tributos · Apuração Assistida da CBS · Novos sistemas de arrecadação integrados à apuração
Dados fiscais e cadastros: onde eu olharia antes de procurar uma ferramenta?
A Emanuelle contou na masterclass que, ao longo da carreira, já encontrou empresas carregando tratamentos tributários incorretos porque a premissa cadastrada no sistema estava errada. Eu gosto desse exemplo porque ele é pouco cinematográfico. Não tem invasão, pane geral nem dashboard piscando vermelho. O processo simplesmente continua funcionando.
Até o dia em que alguém volta à origem e percebe que o dado estava errado desde o começo. A Reforma não inventou esse problema. O que ela faz é colocar mais processos em cima de informações estruturadas e, com isso, diminuir o conforto de tratar cadastro como um detalhe operacional que a empresa revisa quando sobra tempo.
Se eu estivesse numa reunião de preparação hoje, antes de discutir uma nova ferramenta eu pediria um mapa simples dos dados críticos. Não precisa começar com um projeto de seis meses. Começaria tentando responder:
- Quais cadastros determinam tratamento tributário, emissão de documentos ou direito a crédito?
- Quem pode alterar esses dados e quem valida a mudança?
- Quais campos são preenchidos manualmente ou corrigidos fora do sistema de origem?
- Quais classificações dependem de interpretação que ainda vive na cabeça de uma pessoa?
- Quando um cadastro muda, quais sistemas recebem a atualização e em quanto tempo?
- Existe histórico suficiente para reconstruir quem alterou uma informação relevante e por quê?
Tem um lado pouco glamouroso nisso, eu sei. Ninguém abre o kick-off da Reforma dizendo que o grande sonho do trimestre é revisar cadastro mestre. Só que descobrir, no meio da transição, que um campo preenchido em 2019 resolveu assumir papel de protagonista também não parece uma experiência particularmente divertida.
E aqui entra uma diferença importante entre corrigir dado e criar governança para o dado. Corrigir resolve aquela ocorrência. Governança define quem responde pela informação, como ela muda e como a empresa percebe quando alguma coisa saiu do padrão. Num cenário mais automatizado, essa segunda parte vale muito porque evita que o mesmo erro volte com uma roupa nova no mês seguinte.
Quando Emanuelle diz que a conciliação fiscal passa pelo Financeiro, o que muda?
| “A sua conciliação fiscal é com o financeiro agora.” Emanuelle Lemos, ao explicar a relação entre crédito, pagamento e conciliação na masterclass |
Quando ouvi essa frase pela primeira vez, achei que tinha um pouco de exagero de palco (coisa que todos nós fazemos quando falamos pra grandes públicos). Depois ela começou a explicar a relação entre pagamento, crédito e os novos mecanismos da Reforma, e a frase ficou bem menos exagerada.
O ponto não é que o Fiscal vai virar Financeiro ou que todas as conciliações mudam de dono. O que acontece é que determinados eventos tributários passam a depender cada vez mais de informações que também estão na liquidação da operação. Isso aproxima áreas que, em muitas empresas, ainda trabalham com ritmos, sistemas e prioridades diferentes.
The company split payment deixa essa aproximação especialmente visível.
Em maio de 2026, Receita Federal e CGIBS autorizaram a publicação do manual de integração e da especificação técnica da plataforma pública para que instituições de pagamento e operadores de sistemas começassem a desenvolver suas soluções. A implantação é gradual, mas o desenho já conecta o tratamento tributário à liquidação financeira.
Quando eu puxo isso para dentro da empresa, o organograma começa a ficar pequeno para explicar a jornada do dado:
- Tax acompanha regra, tratamento e possíveis inconsistências;
- Compras influencia fornecedor, condição e características da operação desde a origem;
- Tecnologia traduz requisito em sistema, integração, versão e validação;
- Finance acompanha pagamento, liquidação, caixa e efeitos associados ao crédito;
- Accounting registra e reconcilia o resultado de tudo isso.
Se cada área chega ao fechamento com uma versão diferente da mesma transação, a reunião começa fiscal e termina quase filosófica: qual número é o certo? A pergunta é simples. Reconstruir a resposta costuma ser a parte cara.
É por isso que eu gosto de pensar na Reforma também como um teste de integração organizacional. Não adianta o Fiscal conhecer a regra perfeitamente se o dado necessário chega tarde. Não adianta o sistema calcular se o cadastro nasce errado. E não adianta o Financeiro enxergar a liquidação sem conseguir relacioná-la com o tratamento que gerou aquele valor.
Fontes para aprofundar: Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 2/2026 sobre split payment
E o Excel? A fala da Emanuelle ainda faz sentido em 2026?
| “Não adianta achar que a gente vai continuar fazendo no Excel.” Emanuelle Lemos, na masterclass Reforma Tributária e dados |
Sempre que alguém fala de automação aparece uma vontade coletiva de decretar a morte do Excel. Eu não vou fazer isso. A planilha continua ótima para análise, simulação, investigação e uma quantidade impressionante de coisas que ninguém imaginava quando ela foi criada.
O ponto da Emanuelle, pelo menos do jeito que eu leio, é outro.
O problema começa quando a planilha deixa de ser ferramenta e vira infraestrutura entre sistemas. Aí aparece aquele fluxo conhecido: baixa arquivo, ajusta coluna, procura o PROCV que quebrou, cola informação, salva a versão final, cria a finalíssima e manda para alguém conferir uma conciliação que já passou por duas pessoas.
Esse modelo pode funcionar durante anos. A questão é como ele reage quando aumenta a quantidade de documentos, muda o leiaute, surgem novas validações e a empresa precisa relacionar dados fiscais, financeiros e contábeis com mais frequência. O que era uma ponte manual conveniente pode virar o ponto em que a operação perde rastreabilidade ou simplesmente deixa de escalar.
Por isso, eu não começaria uma caça às planilhas. Começaria procurando as planilhas que existem porque dois sistemas não conversam, porque uma regra não está parametrizada ou porque alguém precisa reconstruir uma informação que deveria chegar pronta. Essas são as que contam uma história sobre a arquitetura da operação.
E também vale uma defesa do bom senso: nem tudo precisa virar automação só porque dá para automatizar. Se a atividade é eventual, analítica e exige julgamento, a planilha pode continuar sendo a melhor ferramenta. A prioridade está nos pontos em que o trabalho manual virou dependência diária para um processo crítico.
Quando o time sai do um por um, o trabalho fiscal muda de lugar? Vamos ver!
| “Você não vai fazer mais um por um. O que que tá fugindo do padrão aqui? Eu vou olhar.” Emanuelle Lemos, ao falar sobre gestão de exceções na masterclass |
Pra mim, essa é uma das falas mais interessantes da masterclass porque ela fala de tecnologia sem colocar a tecnologia no centro. O que muda é o trabalho humano depois que uma parte da conferência consegue acontecer de forma estruturada.
Quando o processo identifica o que está dentro do padrão e destaca o que saiu dele, a equipe deixa de gastar a mesma energia em todas as transações. O conhecimento tributário entra justamente onde existe contexto, dúvida, exceção ou decisão. E, para uma área que vive pressionada por prazo, essa redistribuição de atenção é bem relevante.
Eu resumiria essa mudança em três movimentos:
- De processamento manual para análise estratégica: menos tempo reconstruindo informação e mais tempo entendendo o que ela significa;
- De conciliação documento a documento para gestão de exceções: o time entra onde o processo foge do comportamento esperado;
- De reação para antecipação: divergências recorrentes passam a alimentar melhoria de cadastro, regra, integração e processo.
Eu gosto dessa leitura porque ela foge da conversa rasa sobre tecnologia para substituir gente. O conhecimento fiscal continua sendo necessário e, em vários momentos, fica ainda mais valioso. A diferença é onde esse conhecimento é usado. Menos para mover dado de um lado para outro e mais para interpretar o que o sistema não conseguiu resolver sozinho.
Isso também muda o que a liderança pode acompanhar. Cumprir prazo continua básico, mas outros indicadores começam a contar uma história melhor sobre a maturidade da operação: reincidência de erro cadastral, volume de exceções, tempo para corrigir divergências, dependência de controles paralelos, estabilidade das integrações e quantidade de ajustes feitos fora do fluxo oficial.
São métricas menos glamourosas do que um dashboard cheio de cores, mas muito úteis para descobrir se a empresa está realmente construindo uma operação mais confiável ou apenas correndo mais rápido dentro do mesmo processo.
O piloto da CBS mostra que o governo também está testando com as empresas?
Tem uma parte da implementação que eu acho especialmente relevante para grandes empresas: o Piloto da CBS não foi desenhado apenas dentro do governo. A Receita Federal informa que o projeto, feito em parceria com o Serpro, permite participação direta de empresas na experimentação prática das soluções tecnológicas e segue, na estimativa atual, até dezembro de 2026.
Isso é importante porque sistemas tributários desse tamanho não podem ser testados só em cenário ideal. Empresas trazem ERP legado, volume, particularidade setorial, integrações próprias, estruturas societárias diferentes e uma variedade enorme de casos que uma especificação técnica sozinha não consegue representar.
O próprio site do piloto faz uma ressalva útil: nesta fase, os testes não incluem APIs nem volumes maiores de dados. Ou seja, ainda existem camadas importantes a evoluir. Para mim, isso reforça a ideia de que 2026 é um ano para criar capacidade de adaptação, e não para esperar uma versão final e imutável de tudo.
Se o governo está testando, ajustando e evoluindo sistemas, a empresa também precisa de espaço para testar. Ambiente de homologação, massa de dados representativa, responsáveis claros e registro do que mudou deixam de ser detalhes de TI. Eles viram parte da preparação fiscal.
Fontes para aprofundar: Piloto da CBS — Receita Federal
Se eu estivesse olhando para uma grande operação hoje, por onde começaria?
Depois de cruzar a masterclass com o que já apareceu em 2026, eu evitaria começar pela ferramenta. Primeiro tentaria descobrir onde o dado fiscal ainda depende de memória, retrabalho ou uma sequência de atividades que só funciona porque alguém conhece o caminho de cabeça.
Eu faria esse diagnóstico em três camadas. A primeira é a origem do dado; a segunda, o caminho que ele percorre; a terceira, o que a empresa faz quando algo dá errado.
| 1. Origem | 2. Caminho | 3. Exceção |
|---|---|---|
| Quais cadastros, classificações e regras definem o tratamento? Quem responde por cada informação? | Por quais sistemas o dado passa? Onde existe exportação, ajuste manual, reprocessamento ou integração? | Como uma divergência aparece? Quem investiga? Quanto tempo leva para corrigir a causa, e não só o efeito? |
Depois disso, eu colocaria algumas perguntas na mesa. Elas parecem simples, mas costumam mostrar bem rápido onde a operação está apoiada em conhecimento informal demais:
- Onde nascem os dados fiscais que mais impactam emissão, apuração e créditos?
- Quais informações passam por tratamento manual antes de chegar ao próximo sistema?
- Fiscal, Financeiro, Contabilidade, Compras e TI conseguem reconstruir a mesma operação a partir dos mesmos dados?
- Quais controles paralelos existem porque os sistemas ainda não conversam como deveriam?
- Quais erros aparecem todo mês e são tratados como rotina em vez de causa?
- Que processo depende de uma pessoa específica e fica difícil de explicar quando ela sai de férias?
As respostas já ajudam a montar uma ordem de prioridade. Talvez o primeiro problema esteja num cadastro. Talvez esteja numa integração. Talvez exista um processo manual que funciona muito bem hoje, mas só porque alguém conhece uma planilha que parece ter sido treinada por anos para obedecer exclusivamente ao dono.
O importante é evitar um erro comum em projetos grandes: partir da solução antes de conhecer a fragilidade. A Reforma vai continuar trazendo novas exigências até 2033. Uma arquitetura melhor de dados não resolve só a etapa atual; ela aumenta a capacidade de absorver as próximas mudanças sem reconstruir tudo do zero.
Antes de fechar este artigo, o que a frase da Emanuelle ainda me faz pensar?
Quando Emanuelle gravou essa conversa em setembro de 2025, muita coisa ainda estava no campo da preparação. Voltar ao conteúdo em agosto de 2026 foi interessante justamente porque já dá para observar a Reforma saindo da legislação e chegando aos sistemas, aos documentos, aos ambientes de apuração e às integrações que sustentam uma grande empresa.
O ponto que mais ficou comigo é que dados fiscais ganharam peso porque passaram a participar de mais etapas e de mais decisões. Eles alimentam documentos, cálculo, validação, apuração, conciliação e, cada vez mais, a relação entre Fiscal e Financeiro. Por isso, preparar a empresa também passa por entender onde esses dados nascem, quem cuida deles e se dá para confiar no caminho que percorrem.
Talvez seja esse o lado mais humano de uma discussão tão técnica. Quando a informação chega melhor, as pessoas gastam menos energia procurando qual planilha está certa, reconstruindo histórico ou conferindo o mesmo documento pela terceira vez. Esse tempo volta para análise, exceção, decisão e conversa entre áreas.
E dados são só uma parte da transição. A Reforma ainda envolve cronograma, créditos, impactos setoriais, mudanças de processo, sistemas e preparação até 2033. Se você está organizando essa agenda dentro da empresa, a Dattos reuniu especialistas em uma formação gratuita para aprofundar justamente essas frentes.