Padronização de processos financeiros: como escalar sem engessar operações diferentes?

22 de octubre de 2026
13 minutos de leitura
Padronização de processos financeiros pode gerar escala sem apagar diferenças locais. Veja os aprendizados da Natura na América Latina.
Temas

Padronização de processos financeiros parece uma ideia simples até você tentar aplicá-la numa operação que atravessa vários países. Foi uma das coisas que mais ficaram comigo depois do webinar da Dattos com a Natura.

La Cris Carvalho, coordenadora de Contas a Receber na Natura, contou como o time centralizou operações da América Latina enquanto convivia com bancos, arrecadadoras, formatos de arquivos, regras locais e ERPs diferentes. Em alguns mercados, até o arquivo usado na conciliação podia mudar de um dia para o outro.

Foi aí que pensei numa contradição interessante: como criar um padrão quando boa parte da operação não é padronizada?

A resposta que aparece ao longo da experiência da Natura é menos rígida do que parece. Padronizar não significa deixar tudo igual; significa decidir o que precisa ser comum para a operação continuar controlável, auditável e escalável.

É essa leitura que quero explorar aqui. O webinar é o ponto de partida, mas a pergunta vale para qualquer empresa tentando centralizar, automatizar ou escalar uma operação financeira complexa.

Padronização de processos financeiros: o que precisa ser padrão de verdade?

Quando a Natura começou a centralizar as operações de contas a receber da América Latina, em 2020, cada país conduzia suas conciliações de uma forma. O Brasil utilizava SAP; outros mercados operavam com Gera. Somavam-se a isso mais de 50 bancos e arrecadadoras e um volume alto de manipulação em planilhas.

Antes de falar em automação, portanto, existia uma decisão anterior: separar as diferenças que faziam parte do negócio das diferenças que apenas haviam se acumulado ao longo do tempo.

Pode variar entre mercadosPrecisa permanecer consistente
Bancos e arrecadadorasResultado esperado da conciliação
Formatos de arquivosCritérios e regras de validação
ERP utilizadoForma de identificar divergências
Particularidades locaisRastreabilidade do processo
Integrações disponíveisEvidências para controle e auditoria
Frequência e origem do dadoResponsáveis e tratamento das exceções

La APQC trabalha com uma lógica parecida: processos, dados, controles e papéis devem ser padronizados onde isso melhora o fluxo de ponta a ponta, enquanto variações regionais ou de negócio podem existir quando são necessárias, documentadas e governadas.

Essa nuance importa porque transforma padronização em método — e não em uniformidade pela uniformidade.

Qual era o problema antes de padronizar?

O cenário inicial ajuda a entender por que a discussão não era apenas tecnológica. Havia complexidade suficiente para que cada exceção criasse mais trabalho manual e mais dependência do conhecimento de quem executava o processo.

  • Operações descentralizadas: cada país conduzia a conciliação segundo a própria rotina;
  • Dois ERPs principais: SAP no Brasil e Gera em outros mercados da América Latina;
  • Mais de 50 bancos e arrecadadoras: cada fonte podia trazer formatos, portais e lógicas diferentes;
  • Baixa correspondência entre identificadores: o banco podia trazer um dado e o sistema usar outro código para representar a mesma pessoa ou operação;
  • Planilhas como ponte: grande parte do tratamento dependia de extração, ajuste, cruzamento e manipulação manual de dados.

Quando a operação cresce nesse desenho, o problema não é apenas “demorar mais”. Fica mais difícil treinar gente nova, provar o caminho do dado, absorver um país novo e até entender se duas áreas estão chamando a mesma coisa pelo mesmo nome.

Por que a Colômbia virou o laboratório da escala?

A Colômbia foi o primeiro mercado implantado. Segundo Cris, havia cerca de 11 ou 12 arrecadadoras, com formatos, plataformas e lógicas diferentes. O time precisou desenhar regra por regra e campo por campo enquanto ainda aprendia o que a nova estrutura exigia.

O detalhe mais interessante é que o arquivo usado na configuração podia mudar antes mesmo da execução. Em vez de tentar congelar a realidade, o time começou a criar regras capazes de receber variações sem refazer o processo inteiro.

Aprendizado da ColômbiaO que isso resolveu na expansão
Mapear regra por regra antes de automatizarDeixou mais claro o que era requisito e o que era particularidade local
Definir o resultado esperado antes do formatoPermitiu tratar fontes diferentes dentro da mesma lógica
Criar regras para absorver mudanças de arquivoReduziu reconfigurações sempre que a fonte mudava
Documentar o que a Dattos precisava receberAcelerou a implantação dos mercados seguintes
Usar o primeiro país como teste realTransformou experiência de implantação em conhecimento replicável

A Colômbia continuou tendo suas próprias arrecadadoras e particularidades. O ganho foi outro: surgiu uma lógica que podia viajar entre mercados.

Como saber se a padronização realmente ganhou escala?

O primeiro sinal apareceu no tempo de execução, mas o teste mais interessante veio quando o modelo precisou crescer. Em 2024, a Natura iniciou a internalização do CSC da Avon, então localizado na Argentina. O projeto envolvia 13 países e quase 100 contas.

Dessa vez, o time já sabia mapear o processo, organizar os arquivos e preparar as regras. O conhecimento acumulado na primeira etapa passou a reduzir o esforço da etapa seguinte.

MarcoComplexidade absorvidaO que mudou
2020 · centralização Natura LATAMOperações antes descentralizadas entre paísesComeça a busca por harmonização e padronização
2021–2022 · primeiros mercadosCinco países e múltiplas arrecadadorasColômbia vira referência para expansão
2024 · internalização Avon13 países e quase 100 contasImplantação em pouco mais de três meses
Final de 2025 · integraçõesNaturaPay, Gera e SAPAutomação avança também para fluxos integrados
2026 · alto volumeProcesso no Brasil com cerca de 10–12 milhões de linhas/mêsModelo precisa escalar sem reprocessar o que já foi tratado

Essa evolução ajuda a separar velocidade de escala. Velocidade é fazer mais rápido o que já existia. Escala é conseguir colocar mais países, mais fontes e mais volume dentro da operação sem redesenhar tudo desde o início.

Escalar precisa significar contratar mais gente?

Os números do case chamam atenção, mas eu acho mais útil colocá-los lado a lado. Eles mostram diferentes formas de ganho — tempo, capacidade, equipe e controle financeiro.

IndicadorResultado observado
Tempo de determinadas conciliaçõesde 4 horas para cerca de 5 minutos
Operação Avon no Méxicoredução de 660 horas por mês
Capacidade de equipeganho equivalente a 5 FTEs em uma operação
Expansão do escoponovas atividades absorvidas sem aumento proporcional do quadro
Revisão históricavalores na casa dos milhões identificados em repasses não realizados

Nem todos os processos resultaram em redução de pessoas. A própria Cris explicou que, em alguns casos, a equipe absorveu novas atividades sem aumentar o quadro. Para mim, esse é um indicador de escala tão importante quanto redução de FTE: a estrutura passou a entregar mais sem crescer na mesma proporção.

O que acontece quando o time deixa de manipular dado para começar a analisá-lo?

“A gente perdia mais tempo manipulando o dado do que analisando o dado em si.”
Cristiana Jesus Carvalho, Coordenadora de Contas a Receber na Natura —
webinar da Dattos

Essa fala resume uma mudança que o número de horas sozinho não mostra. Antes, boa parte da energia do time estava em preparar a informação: baixar arquivo, ajustar, consolidar, cruzar, conferir e corrigir. Só depois começava a análise.

Com mais do tratamento acontecendo dentro de uma lógica estruturada, o trabalho humano começa a se deslocar:

  • Menos preparação manual: o time reduz tarefas de transformação e manipulação do dado;
  • Mais análise de exceções: a atenção vai para aquilo que não conciliou ou saiu do comportamento esperado;
  • Mais melhoria contínua: analistas ganham espaço para revisar processos, criar novas rotinas e atacar causas recorrentes;
  • Mais autonomia: a equipe foi treinada para construir e adaptar processos, em vez de depender exclusivamente de terceiros para toda mudança.

Produtividade, nesse contexto, não é fazer a mesma pessoa clicar mais rápido. É usar o conhecimento dela onde julgamento e análise realmente fazem diferença.

Onde padronização encontra governança e auditoria?

Velocidade costuma ser o primeiro benefício lembrado, mas o webinar trouxe outra consequência: a padronização também mudou a forma como o dado podia ser rastreado e apresentado à auditoria.

AntesDepois da padronização
Manipulação frequente de arquivos em planilhasArquivos originais preservados durante o tratamento
Modelos diferentes por país e processoRegras e critérios mais consistentes entre mercados
Maior risco de excluir ou alterar uma informação manualmenteMenor intervenção sobre a fonte recebida
Evidências espalhadas em rotinas distintasConsolidação das evidências e maior rastreabilidade
Reconstrução mais difícil meses depoisProcesso mais fácil de explicar, repetir e auditar

Parece um detalhe técnico até alguém perguntar de onde veio determinado número. A partir daí, rastreabilidade deixa de ser detalhe e passa a ser parte do controle.

O que dois anos de histórico revelaram sobre o valor da conciliação?

Em uma das operações, a Natura precisou revisitar conciliações feitas manualmente em anos anteriores. Em vez de interromper o dia a dia, o time duplicou a lógica existente e reprocessou cerca de dois anos de histórico em poucos dias.

O resultado revelou valores na casa dos milhões que arrecadadoras não haviam repassado. Esse caso muda a forma de olhar para a conciliação: ela deixa de ser somente a confirmação de que dois números batem e passa a ajudar a identificar o que deveria ter acontecido e não aconteceu.

O que esse episódio mostraPor que importa
Histórico pode ser reprocessado de forma estruturadaAnálises deixam de depender de reconstrução manual caso a caso
Uma divergência operacional pode esconder efeito financeiroControle não se limita ao fechamento do período
Padronização facilita comparação entre períodos e fontesO time consegue procurar padrões e exceções com mais consistência
Velocidade também aumenta a capacidade de investigarO retorno da automação pode aparecer em risco evitado ou valor recuperado

Como evitar que a padronização vire engessamento?

Essa era minha principal pergunta ao rever o webinar. O caso da Natura mostra que o padrão pode conviver com formas diferentes de entrada, integração e volume. Em alguns processos, os arquivos seguem sendo inseridos manualmente; em outros, existem integrações. O que permanece comum é a lógica de controle.

Se eu tivesse de resumir os aprendizados em seis regras práticas, seriam estas:

PrincípioComo aplicar
Padronize o resultado antes da ferramentaFontes diferentes podem chegar à mesma lógica de validação
Separe particularidade local de improviso históricoNem toda variação merece virar regra permanente
Mapeie o AS-IS antes de automatizarAutomação não corrige um processo que ninguém entende
Use o primeiro processo como laboratórioO aprendizado da implantação precisa reduzir o esforço das próximas
Meça capacidade, não apenas redução de quadroHoras economizadas e operações absorvidas também mostram escala
Revise o padrão depois da implantaçãoUm processo automatizado ainda pode ganhar novas regras, integrações e formas de controle

Que perguntas eu faria antes de escalar outra operação financeira?

A última parte do artigo eu transformaria quase num diagnóstico. Antes de escolher ferramenta ou decidir que “tudo precisa ser igual”, eu colocaria estas perguntas na mesa:

PerguntaO que ela ajuda a descobrir
O que precisa sair igual, independentemente do país?Qual é o núcleo realmente padronizável do processo
Quais diferenças são legais ou operacionais e quais são apenas históricas?Onde existe complexidade real e onde existe complexidade herdada
Onde o time ainda prepara mais dado do que analisa?Quais atividades consomem capacidade sem exigir julgamento
Como uma exceção é identificada e explicada meses depois?O nível de rastreabilidade e governança
Se outro país entrar amanhã, o processo aguenta?Se o desenho atual tem capacidade de escala
Quem sabe fazer o processo quando a pessoa-chave sai de férias?Quanto conhecimento ainda está preso em indivíduos

As respostas ajudam a separar duas coisas que costumam aparecer misturadas: complexidade que a empresa precisa administrar e complexidade que ela apenas herdou. A primeira pede controle. A segunda pode ser redesenhada.

O que a Natura ensina sobre padronização de processos financeiros?

Quando comecei a rever o webinar, os resultados chamaram atenção primeiro. É difícil ignorar uma conciliação que cai de horas para minutos, centenas de horas mensais economizadas ou milhões identificados numa revisão histórica.

Mas o aprendizado mais interessante está um pouco antes desses números: a Natura foi construindo uma lógica operacional que podia ser reaproveitada. Primeiro nos países da Natura, depois na internalização da Avon, depois em novas integrações, volumes e áreas.

“A gente precisa ter um processo padronizado, consolidado, onde eu posso extrair esse dado a qualquer momento.”
Cristiana Jesus Carvalho, Natura —
webinar da Dattos

Pra mim, é aí que está a diferença entre padronizar e engessar. Engessar é preservar um único desenho mesmo quando a realidade muda. Padronizar é criar regras, dados, controles e resultados suficientemente consistentes para que a operação consiga mudar sem voltar ao caos.

Talvez a pergunta final seja simples: se amanhã o volume dobrar, outra empresa entrar no grupo ou um novo país precisar ser absorvido, o processo consegue crescer junto? Se a resposta depender de contratar mais gente, criar mais uma planilha e encontrar quem entende aquela macro antiga, existe uma conversa sobre padronização esperando para acontecer.

Quer acompanhar os bastidores completos dessa transformação?

Este artigo foi construído a partir do webinar “De 4 horas a 5 minutos: como a Natura automatizou conciliações em escala na América Latina”, com Cristiana Jesus Carvalho e Márcia Oliveira Pinto.

A gravação aprofunda os desafios de implantação, as diferenças entre mercados e os resultados acumulados ao longo da jornada.

Para acompanhar os números consolidados e a evolução do projeto, veja também a história de sucesso da Natura com a Dattos.

Larissa Facin é CRO da Dattos, com experiência em negócios, SaaS, meios de pagamento e inteligência artificial aplicada às finanças. Atua ao lado de lideranças financeiras na transformação de processos, conectando tecnologia, eficiência operacional e resultados de negócio.
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